A maioria dos casos de `bullying` ocorre no recreio durante os intervalos, quando existe menos supervisão, segundo a coordenadora do Observatório Nacional do Bullying que alerta para a falta de recursos nas escolas para prevenir estas situações.
"Momentos como os intervalos das aulas deviam ser momentos de maior tranquilidade e são, por outro lado, o momento de maior vulnerabilidade por parte das vítimas. Os recursos têm de ser reforçados", defendeu Mafalda Ferreira, em declarações à agência Lusa.
O Observatório Nacional do Bullying, uma plataforma informal de denúncia, foi lançado pela Associação Plano i em 30 de janeiro de 2020 e, desde então, recebeu 666 denúncias.
Ao longo dos últimos cinco anos, as tendências mantiveram-se: as raparigas são mais vulneráveis, os casos acontecem sobretudo no recreio sob a forma de violência psicológica e são vários os agressores.
De acordo com os relatos, os intervalos da manhã e da tarde são os períodos de maior ocorrência de situações de `bullying`, "momentos em que há menor supervisão dentro do contexto escolar", sublinha a investigadora.
Esta maior incidência revela que as escolas dispõem de poucos recursos, nomeadamente assistentes operacionais e, por isso, Mafalda Ferreira destaca a necessidade de reforçar o pessoal docente e não docente, mas também de mais formação e sensibilização para o tema.
"É preciso que existam mais pessoas e que saibam que o seu papel enquanto testemunhas é crucial na forma como este crime se desenvolve", refere, justificando que a forma como atuam perante situações de `bullying` pode "perpetuar este fenómeno ou interromper".
"Muitas vezes, têm receio de intervir por medo de represálias, por falta de informação, de saber como agir, por conformismo social. A partir do momento em que tenham uma atitude mais proativa, podem reduzir a frequência e o impacto das agressões", explica.
No entender da investigadora, a sensibilização deve incluir também os encarregados de educação e os próprios alunos, neste caso com um foco em questões como a violência interpessoal, gestão emocional e de conflitos, comunicação positiva e a empatia, diversidade e respeito.
Segundo um balanço das denúncias reportadas entre 2020 e 2024, a média das idades das vítimas é 13,7 anos, maioritariamente raparigas (59%), enquanto os agressores foram sobretudo rapazes (56%) com uma média de 13,23 anos.
Os dados mostram também que os anos de escolaridade de maior ocorrência são no 1.º ciclo (32,9%), seguido do 3.º ciclo (23,4%) e do 2.º ciclo (22,4%), mas não significa que as crianças mais novas sejam mais vulneráveis.
"Podemos assumir que os pais, o pessoal docente e não docente, as testemunhas estão mais sensibilizadas, por vezes, em torno da idade da criança, o que faz com que haja uma maior tendência para repudiar este comportamento e considerá-lo digno de ser comunicado", refere a investigadora, sublinhando que, por outro lado, a supervisão nas escolas também é maior no 1.º ciclo.
Por outro lado, os relatos, apresentados frequentemente pelos encarregados de educação, mostram que as situações de `bullying` ocorrem sobretudo presencialmente, mas com as novas tecnologias acabam por extravasar, cada vez mais, esse contexto.
A tendência começou durante a pandemia da covid-19, quando as escolas fecharam portas e os alunos continuaram a estudar em casa, mas não se limitou a esse período e tem-se agravado desde então, refere Mafalda Ferreira.
"Não podemos ignorar o que vemos à nossa volta no contexto das camadas mais jovens e do uso precoce dos telemóveis. Faz com que o `bullying` não cesse naquele momento", sublinha, referindo como exemplo que os alunos podem ser vitimas mesmo dentro da sala de aula, através das redes sociais, e depois de regressarem a casa.
O formulário para a apresentação de denúncias está disponível na página do Observatório Nacional do Bullying, em www.associacaoplanoi.org/observatorio-nacional-do-bullying.