Covid-19. Hospitais do Norte transferem doentes que precisam de ECMO para Lisboa
Vários hospitais do norte esgotaram a capacidade de resposta a doentes que precisam de ECMO, um dispositivo de circulação extracorporal essencial ao tratamento de doentes críticos, e começaram a transferir utentes para os hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo.
A questão da limitação na capacidade de resposta explica-se com a "existência de equipamentos para tratar os doentes – uma vez que o ECMO implica a utilização de dispositivos que não estão disponíveis de forma ilimitada" - , de recursos humanos que "têm de ser muito diferenciados" e a existência de "vagas dedicadas a doentes covid e não covid, porque os doentes covid, pela natureza e transmissibilidade do vírus, têm de estar em áreas dedicadas (…) e, portanto, isso também coloca um constrangimento".
"Todos os países que tentaram generalizar a técnica do ECMO para o tratamento destes doentes tiveram péssimos resultados", afirmou ainda o médico. "O grande desafio, que é um desafio que também é comum com os cuidados intensivos, é conseguir (…) incorporar esta realidade que é o doente covid grave".
"Num contexto de pandemia, temos de ter muito sangue frio porque os recursos são muito limitados", explicou, acrescentando que "menos de cinco por cento dos doentes com Covid-19 grave beneficiam de tratamento com ECMO".
"Se quisermos ter uma excelente resposta de ECMO em Portugal temos, primeiro, de controlar a pandemia", frisou Roberto Roncon.
Covid-19 criou "constrangimentos" e aumentou procura de ECMO
Segundo Roberto Roncon, este centro hospitalar "teve um número significativo de solicitações para ECMO" mas não foi possível dar resposta a alguns doentes. Nesse caso, o médico explicou que são contactados "outros centros de referência" como em Lisboa e transferidos os doentes que necessitam deste dispositivo.
Ao contrário do que aconteceu na primeira vaga, agora está comprovado que o tratamento bem utilizado do ECMO em doentes com Covid-19 pode ter bons resultados. Mas, como explicou Roberto Roncon, nas últimas semanas os hospitais têm tido mais solicitações de tratamentos com este dispositivo de doentes com outras patologias, o que aumentou a procura do ECMO e potenciou a que se atingisse mais depressa a capacidade de resposta do centro hospitalar a estes doentes.
"O Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC) [onde está integrado o Hospital São José], está a fazer resgates de ECMO (cuidados intensivos) de doentes Covid-19 da região Norte", lê-se numa nota enviada à comunicação social no sábado.
Na sexta-feira, este centro hospitalar recebeu doentes dos hospitais de Penafiel, Pedro Hispano, em Matosinhos, e de Bragança e no sábado recebeu um doente do Hospital de Guimarães.
"Esperamos que o confinamento reduza nos próximos dias a pressão sobre o SNS [Serviço Nacional de Saúde]", sublinhou o CHLC, adiantando a que "a gestão dos doentes funciona em pleno entre as unidades".
Recorde-se que em Portugal, o Centro Hospitalar e Universitário de S. João, no Porto, os hospitais de Santa Maria e de S. José são os centros de referência para ECMO.
À RTP, Roberto Roncon afirmou que só no Hospital de São João já há "mais doentes internados nos Cuidados Intensivos por Covid-19 grave do que por outras patologias", o que considera preocupante. Além disso, houve a "necessidade de converter uma enfermaria de cirurgia geral numa Unidade de Cuidados Intensivos", o que receia que não sejam as "condições ideiais".
O médico acrescentou ainda que os números da pandemia não parecem estar a abrandar nem prevê que tal aconteça nas próximas duas semanas, continuando assim a aumentar a pressão dos serviços de saúde e, em especial, das Unidades de Cuidados Intensivos.
"Este aumento da procura põe em causa todo o tipo de resposta, seja aos doentes covid ou aos doentes não covid", explicou à Antena 1 João Gouveia.
"Vamos ter nos próximos dias um aumento siginificativo dos doentes na medicina intensiva", afirmou, relembrando que já há serviços com a capacidade de resposta "em rutura".
O objetivo é tentar aumentar a capacidade de respostas das várias insituições, tendo em conta que é "necessário um espirito de sacrificio, de colaboração e solidariedade" com e entre as diferentes instituições de saúde.
A pressão nos hospitais pode aumentar na próxima semana. A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares estima que daqui a 5 dias o total de internamentos pode chegar aos 4.500 doentes, no pior cenário de aumento de casos de covid-19. Haveria 605 camas de cuidados intensivos ocupadas para esta patologia. Este sábado, o boletim epidemiológico revelava que estavam internadas em cuidados intensivos 413 pessoas com covid-19, e um total de 2798 internamentos.
Xavier Barreto, da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, revela à RTP que isso ainda está dentro da capacitação nacional. No entanto, isso significa que ficam a faltar camas para outras patologias. O cancelamento de boa parte da atividade programada seria a "consequência direta e inevitável" do aumento de novos casos de covid-19 neste pior cenário estimado para a próxima sexta-feira.
Cirurgias mais complicadas podem ficar pelo caminho, já que essas implicam sempre um tempo de permanência em cuidados intensivos. Xavier Barreto admite que todos os hospitais estão já a reduzir as cirurgias programadas. Para já, as não urgentes. "É inevitável", afirma. As urgentes e oncológicas tentam ser mantidas.
O responsável fala de medidas que podem mitigar este cenário, como o recurso ao setor hospitalar privado e social, as unidades de internamento de retaguarda, e o desvio de profissionais de outras especialidades para os cuidados intensivos (como anestesiologistas, pneumologistas, enfermeiros).
"Está a ser dada formação. Se calhar não a formação que seria desejável", admite, acusando a tutela de não ter acautelado esta possibilidade há vários meses quando a associação alertou nesse sentido.
Uma vez mais, o desvio de profissionais para os cuidados intensivos só é possível à custa da paragem da atividade programada.
"Acreditamos que teria sido possível recrutar pessoas há muitos meses e capacitado essas pessoas", defende Xavier Barreto, dizendo que se podia ter aproveitado ainda esta oportunidade para fazer regressar com boas condições enfermeiros portugueses a trabalhar noutros países.