Cerca de 825.000 crianças estão encurraladas pelos combates que assolam uma cidade sitiada na região sudanesa do Darfur, alertou hoje a Unicef, descrevendo o "inferno" que estão a viver em resultado da violência e da desnutrição generalizada.
"Não podemos fechar os olhos a este inferno na terra", comentou o representante da agência da ONU no Sudão, Sheldon Yett, em comunicado.
"Estimamos que 825.000 crianças estejam presas numa catástrofe crescente em Al-Fashir e arredores", a capital do Darfur do Norte, no oeste do país devastado pela guerra, acrescentou.
Estas crianças representam metade das 900.000 pessoas que ainda se encontram presas em Al-Fashir e das 750.000 pessoas deslocadas no campo vizinho de Zamzam, onde sofrem de fome.
"Todas as estradas de acesso estão bloqueadas", sublinhou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A insegurança está a tornar "quase impossível" a entrega de ajuda humanitária e de bens comerciais, provocando "uma escassez alarmante de água, alimentos, medicamentos e produtos nutricionais".
A Unicef também denunciou um aumento das violações graves dos direitos das crianças no Darfur desde o início do ano, com 110 violações graves confirmadas e mais de 70 crianças mortas ou mutiladas em três meses em Al-Fashir.
"Uma vez que estes números apenas refletem casos confirmados, o número real de vítimas é provavelmente muito mais elevado. A morte é uma ameaça constante para as crianças, quer devido aos combates que as rodeiam, quer devido ao colapso dos serviços vitais de que dependem para sobreviver", insistiu Sheldon Yett.
No Darfur Norte, mais de 60.000 pessoas foram deslocadas nas últimas seis semanas, somando-se aos mais de 600.000 deslocados - incluindo 300.000 crianças - desde o início da guerra, em abril de 2023.
Esta guerra entre o exército liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhane e as paramilitares Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), comandadas por Mohamed Hamdane Daglo, causou dezenas de milhares de mortos e desalojou mais de 12 milhões de pessoas.
Enquanto os Médicos Sem Fronteiras e o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas anunciaram, há algumas semanas, a suspensão das suas actividades em Zamzam, a Unicef garantiu que prossegue o seu trabalho no campo e em Al-Fashir.
Em particular, a agência distribui ali "alimentos terapêuticos prontos a utilizar", mas "as existências estão a esgotar-se" e o reabastecimento é impossível há três meses.
A Unicef "estima que 500.000 crianças estão diretamente em risco" se a ajuda necessária não puder ser prestada.
A região já sofre de desnutrição galopante, com 457.000 crianças no Darfur do Norte a sofrer de desnutrição aguda, incluindo 146.000 na forma mais grave e mortal, de acordo com a ONU.
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