Na sexta-feira, as embaixadas dos Estados Unidos escreveram uma carta a várias empresas francesas e europeias informando-as de que a repressão da Administração Trump às políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) também se aplica a empresas de todo o mundo que procuram fazer negócios com o Governo dos EUA.
Além da carta, foi também enviado um questionário às empresas, questionando se têm programas internos anti-discriminação em vigor, o que poderia impedi-las de trabalhar com o Governo norte-americano, de acordo com a imprensa francesa.
"Todos os contratantes do Departamento de Estado devem certificar que não operam qualquer programa de promoção de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) que viole as leis anti-discriminação aplicáveis e concordar que esta certificação é essencial para efeitos da decisão de pagamento do Governo e, portanto, sujeita à Lei de Falsas Reclamações", pode ler-se no documento, segundo a
FranceInfo.
A carta pedia aos destinatários que preenchessem, assinassem e
devolvessem, no prazo máximo de cinco dias, o formulário que atestava que “não
têm qualquer programa de promoção da diversidade, da equidade e da
inclusão”, de acordo com o jornal
Le Figaro.
"Se não concordarem em assinar este documento, agradecemos que nos
forneçam razões pormenorizadas, que transmitiremos às nossas equipas
jurídicas", afirma a carta, que segundo o
The Guardian, terá sido enviada também a empresas em Itália, Espanha e Europa de Leste.
"A interferência americana é inaceitável"
A reação de Paris que saiu em defesa das suas empresas não tardou em chegar: "A interferência americana nas políticas de inclusão das empresas
francesas - juntamente com ameaças de tarifas injustificadas - é
inaceitável", afirmou o Ministério francês do Comércio, em comunicado.
A França e a Europa continuarão a defender "as empresas, os seus consumidores, mas também os seus valores".
Em entrevista ao programa da manhã da
RTL, o ministro francês do Comércio, Laurent Saint-Martin, disse esta segunda-feira estar "profundamente chocado" com a carta da Admistração Trump que pede às empresas que "renunciem às políticas de inclusão" que estão em conformidade com a legislação francesa e europeia e garantiu manter-se "muito atento" a propósito deste assunto.
"Vamos discutir este assunto com a embaixada dos EUA em França, porque temos de perceber qual é a verdadeira intenção por detrás desta carta", afirmou.
“É verdade que precisamos de manter uma agenda positiva com os Estados Unidos. Nunca me encontrarão, nem ao governo, nem ao Presidente da República, a seguir uma agenda beligerante com os americanos. Estamos aqui para negociar, estamos aqui para fazer diplomacia económica”, concluiu o ministro.
Já a ministra francesa da Igualdade de Género, Aurore Bergé, considerou a carta da Administração Trump como um "forma de ingerência" evidente de Washington, em declarações ao canal francês BFMTV. "É uma tentativa de impor um diktat às nossas empresas", denunciou.
“Não temos lições a aprender com o patrão da América”
As reações de condenação também se multiplicaram na vizinha Bélgica. O vice-primeiro-ministro belga, Jan Jambon, atacou o presidente do Estados Unidos no domingo, em declarações ao canal RTL-TVi. “Não temos lições a aprender com o patrão da América”, afirmou.
Já o ministro belga dos Negócios Estrangeiros garantiu que "a Bélgica não vai dar nem um único passo atrás" e adiantou que "o Governo está a estudar a melhor forma de responder legalmente aos EUA", segundo o jornal HLN.
Entretanto a luta da administração Trump pelo retrocesso das medidas de diversidade prossegue nos Estados Unidos, onde as autoridades reguladoras norte-americanas colocaram na semana passada a Walt Disney Company e a ABC sob investigação, acusadas de tentarem combater internamente a discriminação.