Kiev e Moscovo aceitam acordo de cessar-fogo no Mar Negro, anuncia a Casa Branca

por Andreia Martins, Graça Andrade Ramos - RTP
Valentyn Ogirenko - Reuters

Os Estados Unidos anunciaram na terça-feira que chegaram a acordo com Kiev e Moscovo para implementar um cessar-fogo no Mar Negro. Segundo o comunicado da Casa Branca, o entendimento visa "garantir a navegação segura, eliminar o uso da força e impedir o uso de embarcações comerciais para fins militares".

O acordo foi estabelecido separadamente com as delegações ucraniana e russa no âmbito das negociações na Arábia Saudita sobre o conflito na Ucrânia, tendo o anúncio sido objeto de duas declarações. 

O acordo visa igualmente banir ataques a infraestruturas energéticas de ambos os países. Por parte da Rússia esta suspensão deverá durar 30 dias, a contar desde o passado dia 18 de março, referiu posteriormente o Kremlin.

A Administração Trump comprometeu-se ainda ajudar a restaurar o acesso dos produtos agrícolas fertilizantes russos ao mercado mundial, que poderão passar pelo levantamento de castigos e de restrições, de acordo com exigências do Kremlin.

Algo que constitui um “enfraquecimento das sanções”, lamentou Volodymyr Zelensky ao comentar o acordo. Esta possibilidade não estava “na nossa agenda, o lado americano levantou-a” durante as negociações em Riade, afirmou aos jornalistas.

A Casa Branca acrescentou que vai continuar a facilitar as negociações de ambos os lados para alcançar uma paz sustentável.

Kiev, Kremlin e Washington referiram ainda estarem de acordo quanto ao envolvimento de países "terceiros" na supervisão das tréguas.

A Ucrânia anunciou entretanto que solicitou “consultas” sobre os “detalhes” dos acordos anunciados separadamente por Washington.
Kiev e Moscovo confirmam tréguas em prazos diferentes

Reagindo em conferência de imprensa ao anúncio da Casa Branca, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy referiu que a trégua pelo lado ucraniano entrou em vigor imediatamente esta terça-feira, tanto para o Mar Negro como para as infraestruturas energéticas.

Aplaudindo as "boas medidas" previstas no acordo, Zelensky comprometeu-se a "aplicar" os termos. Mas, prometeu pedir mais armas e a imposição de sanções à Rússia por parte de Donald Trump se Moscovo quebrasse o acordo.  "Se os russos violarem isto, então eu tenho uma pergunta direta para o presidente Trump. Se eles violarem, aqui estão as provas - pedimos sanções, pedimos armas, etc", disse Zelenskiy aos repórteres em Kiev.


O Kremlin confirmou igualmente que Moscovo concordou em garantir uma navegação segura no Mar Negro.

A Rússia e os Estados Unidos também concordaram em desenvolver medidas para interromper ataques a instalações de energia russas e ucranianas por um período de 30 dias iniciado a 18 de março, acrescentou.

Moscovo e Washington irão desenvolver "medidas" para impedir ataques a alvos energéticos, anunciou ainda o Kremlin.
Já sobre o acordo anunciado por Washington para o Mar Negro, este entrará em vigor após o “levantamento” das restrições às exportações agrícolas russas, especificou o governo russo, entre outras condições.

A implementação de ambas as partes do acordo irá exigir que as sanções ocidentais ao Rosselkhozbank da Rússia, que presta serviços a empresas agrícolas, sejam suspensas, e restaurado o acesso do banco ao sistema de mensagens internacionais SWIFT, afirmou Moscovo.

Sanções a exportadores russos de alimentos e fertilizantes, a empresas de seguros, que prestam serviços a embarques de alimentos e fertilizantes, e as restrições a embarcações e a operações de financiamento comercial, também teriam que ser suspensas, disse o Kremlin. Kiev deixa avisos
“Qualquer movimento” de navios de guerra russos no Mar Negro constituirá “uma violação” do acordo, alertou por seu lado o ministro da Defesa da Ucrânia. O aviso sublinhou que o acordo abrange apenas a navegação de índole comercial.

Rustem Umerov disse que Kiev apoiou o acordo de cessar-fogo com a Rússia anunciado pelos Estados Unidos esta terça-feira e que a Ucrânia daria as boas-vindas a países terceiros para monitorar a sua "implementação".

“Para a implementação eficaz dos acordos, é importante organizar consultas técnicas adicionais o mais rapidamente possível, a fim de chegar a acordo sobre todos os detalhes e aspectos técnicos da implementação, monitorização e controlo dos acordos”, referiu Oumerov num comunicado publicado na rede X e no Facebook, que resume os principais pontos das conversações que tiveram lugar com os norte-americanos na Arábia Saudita nos últimos dias.

Umerov também disse que a Ucrânia consideraria qualquer movimento de embarcações navais pela Rússia além do leste do Mar Negro como uma violação do espírito dos acordos e que, em tal caso, teria o direito à autodefesa.

“Qualquer movimento” de navios de guerra russos “fora da parte oriental do Mar Negro constituirá uma violação do espírito deste acordo”, alertou. “Neste caso, a Ucrânia terá todo o direito de exercer o seu direito de legítima defesa”, acrescentou no comunicado.
Compromissos dos EUA

Segundo o executivo norte-americano, que atuou como intermediário durante estas negociações, cada um dos dois países concordou em "garantir a segurança da navegação, suprimir o uso da força e impedir a utilização de navios comerciais para objetivos militares no Mar Negro".

Os Estados Unidos também se comprometem, no que diz respeito à Ucrânia, a "apoiar os esforços para o intercâmbio de prisioneiros, a libertação de civis e o regresso de crianças ucranianas deslocadas à força".

A Rússia, alvo de numerosas sanções, pode contar com o apoio da Casa Branca para "restaurar o acesso da Rússia ao mercado mundial para as exportações de produtos agrícolas e fertilizantes, reduzir os custos do seguro marítimo e melhorar o acesso aos portos e aos sistemas de pagamento para estas transações".

Durante as conversações, os Estados Unidos "repetiram que o presidente Donald Trump queria absolutamente pôr fim às matanças de ambos os lados".

Washington "continuará a organizar negociações entre as duas partes a fim de encontrar um resultado pacífico", segundo um parágrafo idêntico nos dois comunicados de imprensa.

A administração americana também expressou a sua "gratidão" ao príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

com agências
PUB