Idosos residentes em lar da Guarda maravilhados com viagem de avião até Paris
Quatro idosos residentes no lar de Reigada, no distrito da Guarda, realizaram o sonho de viajar de avião para conhecer várias atrações de Paris, numa experiência que descreveram à Lusa como "maravilhosa e impensável".
"[A viagem de avião] não me deu medo nenhum, vim ao pé da janela, via as nuvens, via por baixo os povos, via os postes, via tudo", disse à Lusa Maria Julieta da Costa, 86 anos, que, graças a esta viagem, pôde estar com a filha, o genro, o sobrinho e o neto, que vivem em Paris, bem como conhecer o seu bisneto bebé pela primeira vez.
Andar de avião era "o maior sonho" de Manuel Dias, 73 anos, que, embora se possa movimentar bem, nunca tinha tido oportunidade de sair de Portugal e os passeios que fez foram graças às atividades do lar onde reside.
Para João Pina, 57 anos, presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, que proporcionou esta viagem, este foi um "projeto teste" para analisar, aprender e progredir nas próximas edições.
Durante os quatro dias de viagem, Maria Helena Brígida, 80 anos, pôde experienciar coisas que nunca pensou viver, como andar de avião, barco e escadas rolantes no aeroporto, e comer sushi, impensável para quem esteve alguns anos acamada e a andar com recurso a andarilho.
"Tenho muito que contar às minhas filhas e amigas quando lhes telefonar. Vou levar muita recordação de onde andei, onde entrei, até já levo aqui também um porta-chaves [da Torre Eiffel]", acrescentou Maria Helena, referindo que Paris a marcou, especialmente ao ver a Torre Eiffel e o Palácio de Versalhes.
Para Augusto Rodrigues Cabral, 92 anos, antigo guarda da GNR, "a melhor viagem que existe é a de avião".
"Vou dizer a quem me perguntar que foi a melhor coisa que tive, e agradecer ao senhor João a amabilidade e a lembrança por me oferecerem esta viagem", afirmou Augusto muito animado, apesar do cansaço, achando "tudo maravilhoso e bonito", incluindo a viagem de barco pelo rio Sena, que receava por lhe relembrar a viagem para a Índia quando foi para a guerra.
"Gostei de tudo, principalmente da Torre Eiffel. Dizem que é a coisa mais bonita do mundo e é de admiração", acrescentou.
No regresso a Portugal, marcado para terça-feira, estes idosos levam ainda os vários registos em fotografias e vídeos na Basílica de Sacré-C(ce)ur, onde conseguiram ainda rezar, no passeio de barco pelo rio Sena ao entardecer de domingo e na Torre Eiffel.
Hoje, penúltimo dia da visita à capital francesa, o grupo foi recebido pela Cônsul-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa, e no sábado estiveram com o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, na Torre Eiffel.
Os idosos foram acompanhados pela diretora técnica do lar onde residem, na Reigada, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, Fátima Ferreira, e pela enfermeira Joana Rodrigues, sempre atentas, e também por portugueses que se voluntariaram para ajudar.
Fátima Ferreira, 27 anos, disse que há mais de dois anos que queriam fazer esta viagem, porque tinham no lar idosos que nunca tinham andado de avião, uma ideia que "para muitas pessoas era muito à frente", mas que sempre acreditaram ser possível.
De uma conversa com João Pina, empresário e administrador do Grupo Pina Jean, do setor da construção civil, e presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, o projeto "Sonhos Sem Idade" saiu do imaginário de quatro idosos e da equipa técnica do lar, permitindo a concretização de um sonho sempre adiado por motivos económicos, físicos e pela idade.
Fátima Ferreira disse esperar que esta ação "inspire muita gente" de outras instituições, para o bem-estar dos utentes dos lares de idosos que acabam por levar uma vida "muito monótona".
"Estamos a falar que o lar é um lar de idosos do interior de Portugal, em que muitos deles nem nunca sequer saíram dali e há muito este estigma que o lar só serve para os utentes estarem lá, para não passearem, ou que não se pode fazer nada com eles. A nossa equipa técnica pensa um bocadinho diferente", acrescentou.
A presença da enfermeira Joana Rodrigues, 24 anos, foi "uma salvaguarda" para todos, trazendo conforto aos idosos para alinharem na experiência, ao terem mais apoio, por exemplo, na parte da medicação ou no caso de se sentirem mal.
Conscientes que iria ser difícil, pelas limitações colocadas pela idade, a viagem "foi até mais fácil" do que pensaram, tendo ficado "muito evidente a força de vontade de todos", com os idosos a fazerem um esforço para conseguirem visitar todos os locais que tinham por objetivo.
Segundo Joana Rodrigues, "o mais importante nesta viagem foi o facto de proporcionar uma primeira viagem de avião aos utentes, porque provavelmente eles nunca mais vão ter esta oportunidade, que nunca pensaram ser possível, sobretudo com 70, 80 ou 90 anos".
A Fundação Nova Era Jean Pina, criada em 2019 para apoiar crianças desfavorecidas e idosos da Guarda, já tem pensada pelo menos mais uma viagem "Sonhos Sem Idade", desta vez com o Luxemburgo como destino, no final do ano, através do apoio de portugueses residentes.