Acampamento pela Habitação. Câmara de Madrid acusa Governo de Sánchez de "negligência"

Acampamento pela Habitação. Câmara de Madrid acusa Governo de Sánchez de "negligência"

A Câmara Municipal de Madrid exigiu no domingo que a Delegação do Governo "restabeleça o mais rapidamente possível" a normalidade na Puerta del Sol, onde centenas de pessoas acampam desde sábado, após o término da manifestação pelo direito à habitação.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Juan Medina - Reuters

“A Delegação do Governo não pode ignorar a situação nem transferir para outra administração os problemas causados ​​pela sua incapacidade e incompetência no exercício das suas funções”, afirmou a autarquia em comunicado, exigindo que sejam enfrentadas as consequências da sua “omissão no cumprimento de funções” e que a normalidade na Puerta del Sol seja restabelecida o mais rapidamente possível.

“Enquanto não houver distúrbios, não cabe à Polícia Nacional atuar”, afirmou o delegado do Governo, Francisco Martín.

Desde sábado à noite que cerca de 300 tendas permanecem montadas na Puerta del Sol, em Madrid, após a manifestação de apoio a Maricarmen — a idosa despejada da sua casa esta semana — e em defesa do direito à habitação. A Câmara Municipal de Madrid manifestou “surpresa” e “indignação” perante o acampamento na Puerta del Sol e acusou a Delegação do Governo em Madrid de “permitir que tal acontecesse”, lembrando ainda que, em 2011, durante o protesto do movimento 15M, as desocupações “foram organizadas e coordenadas pela Delegação do Governo”.

A autarquia classificou o acampamento como “ilegal” e apontou que a situação é “consequência direta da omissão e da falta de diligência da Delegação do Governo e do Ministério do Interior, ou talvez de uma decisão deliberada de permitir que tal ocorresse”.

A Delegação do Governo em Madrid informou que não tem qualquer informação oficial e direta de que a Câmara Municipal da capital ou o Governo Regional tenham solicitado a desocupação da Puerta del Sol. Também não há previsão de atuação por parte da Polícia Nacional enquanto não ocorrerem incidentes.

“Quando começaram as ocupações ilegais, a Polícia Nacional retirou-se das suas posições. Por isso, e para saber se este facto resultou de uma ordem direta do delegado do Governo, a Câmara Municipal de Madrid exige uma explicação à Delegação e ao Ministério do Interior”.

Neste sentido, a Câmara Municipal salientou que “cabe à Delegação do Governo o controlo da ordem pública, nomeadamente no que respeita ao direito de manifestação”. “Esta manifestação, no entanto, deve adequar-se ao que foi comunicado pelos organizadores e ao que foi autorizado, o que não aconteceu desta vez”, apontou.Acampamento passa a segunda noite no centro de MadridCentenas de pessoas passaram a segunda noite acampadas no centro de Madrid, apesar da descida das temperaturas e da previsão de chuva, para exigir medidas contra a crise da habitação.

O número de manifestantes reunidos na praça Puerta del Sol, onde foram montadas mais de 300 tendas, foi aumentado ao longo do dia de domingo, durante o qual foram organizadas várias atividades, como ioga e atuações musicais.

Estão acampadas entre 500 a mil pessoas.
Os participantes garantem que o protesto não tem data para acabar, mas no calendário está marcada a próxima terça-feira como uma data-chave no calendário, pois espera-se que, nesse dia, o Conselho de Ministros aprove um decreto-lei sobre a habitação.

O Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, organizador do acampamento, exige que o decreto inclua medidas como contratos de arrendamento por tempo indeterminado e a suspensão de despejos sem alternativa habitacional.

No entanto, segundo a correspondente da RTP em Espanha, o Governo de Pedro Sánchez dificilmente deverá aprovar a medida exigida pelos manifestantes da renovação automática dos contratos de arrendamento. É uma medida que não está em cima da mesa.
Ana Romeu

No centro da praça, os organizadores montaram uma cozinha comunitária e um centro logístico, onde são distribuídos água e comida aos participantes.Sánchez responde a Maricarmen
Maricarmen Abascal, de 87 anos, despejada da sua casa após a venda fracionada do prédio onde vivia, tinha apelado aos espanhóis para se juntarem à luta numa mensagem vídeo publicada antes da manifestação de sábado.

O chefe do Governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, respondeu-lhe no domingo: "Ontem, Maricarmen gravou um vídeo e pediu ao governo de Espanha — e a mim, em particular — que apresentássemos, na próxima terça-feira, um decreto-lei real para começar a aliviar a situação de emergência habitacional vivida por (...) milhões e milhões de espanhóis e espanholas".

"Maricarmen, tenho uma mensagem para si. O Governo está a trabalhar incansavelmente para apresentar, na próxima terça-feira, o decreto-lei real sobre a habitação. E peço aos grupos parlamentares que façam um último esforço para que seja aprovado no Parlamento nacional", continuou, durante um comício organizado pelo Partido Socialista visando as próximas eleições autárquicas e regionais, também previstas para 2027.Rendas duplicaram em dez anos
Maricarmen Abascal foi obrigada a abandonar o apartamento onde vivia há 70 anos depois de uma empresa imobiliária ter comprado o imóvel e aumentado a renda em 275 por cento, elevando-a para 2.650 euros, segundo o Sindicato de Habitação de Carabanchel.

O caso desta idosa de mais de 80 anos ilustra de forma brutal as dificuldades habitacionais que assolam Espanha, onde as rendas de curta duração para turistas — como a Airbnb — e os "fundos abutres" são acusados ​​de inflacionar os preços e reduzir a oferta.Em dez anos, o preço médio do metro quadrado para arrendamento no país quase duplicou, atingindo os 15,1 euros/m² em agosto, segundo o portal imobiliário Idealista. No caso de compra, o valor está agora nos 2.355 euros, um aumento de mais de 50% no mesmo período, de acordo com os dados oficiais.

Madrid concentra estas tensões de forma particular. Apontada como a cidade mais procurada para o mercado imobiliário de luxo em 2025 e 2026, a capital espanhola possui um parque habitacional social tão reduzido que alguns apartamentos sociais são distribuídos através de sorteio.

c/Agências
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