Moção de censura. PSD acusa Chega de "jogo da lama" e "foguetório"

por João Alexandre

Fotografias de Ana Paula Alves

Na véspera de o parlamento debater a moção de censura ao Governo, o PSD insiste que Luís Montenegro vai responder a quaisquer dúvidas no parlamento e que há um aproveitamento político do partido de André Ventura em relação ao caso da empresa da família do primeiro-ministro.

"Isto é tudo um foguetório. Tal como já vimos tarjas afixadas na Assembleia da República ou a ameaça de querer julgar o presidente da República, agora chegamos ao primeiro-ministro. É tudo para descredibilizar o sistema", afirmou, na Antena 1, o deputado Hugo Carneiro.
Segundo o vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, a moção de censura apresentada pelo Chega - e que é debatida e votada esta sexta-feira no parlamento - é apenas uma manobra de diversão. "Este é o jogo da lama do Chega. É arrastar todas as pessoas para uma suspeição que não tem fundamento. E, portanto, um dos objetivos é, primeiro, distrair as pessoas relativamente aos seus casos internos", sublinhou, no programa Entre Políticos, onde rejeitou que Luís Montenegro esteja em silêncio sobre este e outros temas. "Assim que a notícia foi publicada, o primeiro-ministro emitiu um comunicado nos termos que achou adequados - e bem, parece-me, equilibrado - e não entrou no jogo da lama do Chega, que tem vindo com ultimatos (...) Além do comunicado, disse que responderá a todas as questões no parlamento, e isso vai acontecer amanhã".

Hugo Carneiro deixa, no entanto, críticas à forma como o PS "aproveitou" a moção de censura apresentada pelo Chega: "Esta hesitação do PS, num primeiro momento, serve também para alimentar este fogacho. Julgo que deveria ser evitado".

O deputado do PSD considera ainda que os sociais-democratas são coerentes: "Quando nós soubemos que existiu uma indemnização de 500 mil euros que foi paga na TAP, era um caso evidente. É óbvio que tinham de ser pedidos esclarecimentos. E o Parlamento também achou isso. Portanto, a atuação que o PSD teve no passado é muito coerente com aquilo que está a fazer hoje. Não há nada de diferente. É preciso olhar para os casos e perceber que casos foram esses".

Socialistas insistem: "Primeiro-ministro deve explicações ao país"

O PS diz não compreender a decisão do primeiro-ministro de viajar para o Brasil sem dar todas as explicações necessárias e reitera a necessidade de Luís Montenegro esclarecer as dúvidas em torno da empresa de consultoria da qual foi fundador e gerente.

"Deve algumas explicações ao país, mas não pomos rigorosamente nada em causa. Muito menos a seriedade ou a lisura com que [Luís Montenegro] terá, seguramente, tratado todos os seus assuntos e, neste caso, esta empresa", sublinhou, na Antena 1, o deputado socialista João Paulo Rebelo.

Para o ex-secretário de Estado do Governo de António Costa, há "várias suspeitas" lançadas para o debate pelo Chega que são "manifestamente exageradas", mas que não eliminam a necessidade de o chefe do Governo se explicar perante o país. E não apenas sobre o caso da empresa da família. "O primeiro-ministro está há umas semanas valentes sem ter uma intervenção. E não só nesta matéria em concreto. Quero lembrar que houve uma remodelação governamental. E não foi uma remodelação governamental pontual, não foi a saída de um secretário de Estado e a substituição de um só secretário de Estado", afirmou, no programa Entre Políticos, o deputado socialista.

João Paulo Rebelo adianta ainda que, durante o debate da moção de censura, o PS não se vai circunscrever ao mais recente caso a envolver Luís Montenegro e vai insistir em temas como a administração interna ou a saúde: "É evidente que sim", confirmou o deputado.

E acrescenta: "A expetativa está do lado dos portugueses. Estamos a aguardar essas explicações, que são devidas. O país vive melhor se estiver tranquilo quanto à conduta do primeiro-ministro".

Rita Matias: "Ninguém está a dizer que Montenegro é corrupto"

O Chega assegura que "não tinha a particular intenção" de apresentar uma moção de censura ao Governo da AD, mas sublinha que fez "dois ultimatos" ao primeiro-ministro para que Luís Montenegro prestasse esclarecimentos.

"Quem está na vida pública, na vida política, deve explicar sempre que há uma dúvida. E, não conseguimos compreender o silêncio. Luís Montenegro tem sido um gestor de silêncios e tem estado em silêncio permanentemente", aponta Rita Matias.

Em declarações à Antena 1, no programa Entre Políticos, a deputada e dirigente do Chega lembra que houve uma remodelação no Governo e que, até ao momento, não foram dadas explicações por parte do primeiro-ministro sobre as entradas e saídas de governantes.

"Alterou seis secretários de Estado e permaneceu em silêncio. Viu escândalos abalarem a sua bancada, escândalos abalarem um dirigente na Madeira... e ficou em silêncio. Viu alguns dos seus deputados serem constituídos arguidos no processo Tutti-Frutti e permaneceu em silêncio. Agora é o próprio que tem de explicar como é que tem uma empresa que fatura 600 mil euros em dois anos", insiste a deputada.

Rita Matias ressalva, no entanto, que, apesar da moção de censura ao Governo, o Chega não tem qualquer prova de que há ilegalidades a envolver o líder do Executivo. "Ninguém está a dizer que Luís Montenegro é corrupto ou potencialmente corrupto. Queremos apenas que nos explique com quem fez ajustes diretos e se vai beneficiar da Lei dos Solos ou não. Estes prédios rústicos podem vir a valorizar. Portanto, pode existir uma situação de incompatibilidade", reitera a deputada.

Questionada sobre o momento escolhido para avançar com a moção de censura, Rita Matias responde: "O Chega seria mal compreendido se não tivesse capacidade e coragem de escrutinar também neste momento".
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